Domingo, 19 de Setembro de 2010

If.... (1968) Lindsay Anderson


Já lá vão mais de 40 anos que If.... chocou e abalou a sociedade britânica. Antecipando-se à revolução de 68, esta obra apontada por um embaixador da época como um insulto à nação e uma criação que jamais deveria ver a luz do dia, é considerado por muitos até à data possivelmente o filme que melhor retrata o chocar de uma rebelião.

Resguardando possíveis represálias, Anderson e Sherwin (co-argumentista) abstêm-se de qualquer critica concreta e focam-se na ficção através de uma escola que espelha na perfeição a mentalidade conservador típica da época.

O revolucionário de serviço é Mick Travis (Malcom McDowell, como é de denotar não só célebre pelo culto laranja) um típico inadaptado que contradiz todas as regras.

Como adoro cenas capazes de sintetizar o desejo de um filme não resisto em referir uma: revestido por uma escura capa que cobre quase toda a sua face, Travis retira-a na frente dos seus mais fiéis amigos: Wallace (Richard Warwick) e Johnny (David Wood) para mostrar o "maduro"e ilícito bigode preso à sua face, à medida que se vai despedindo de um "adereço" ilegal na constituição frequentada o protagonista pensativamente diz - "My face is an endless source of fascination"; com esta cena o verdadeiro valor do filme paira, paira tanto a sua cor provocativa como uma enigmática aura de fascínio pelo contraditório como génese da revolução.

O cinematografo Miroslav Ondricek utiliza uma combinação de longos planos filmados à mão (sem tripé nem acessórios de apoio) para criar uma visão sociológica deste mundo subtilmente satírica. A técnica mais eficaz é quando se passa de filme a cores para preto e branco aleatoriamente, uma técnica deliberadamente provocativa já que demonstra a robustez burocrática do mundo real e o aprisionado "eu" livre expandido a ideia de entrave social que origina o descontentamento que futuramente evoluíra para uma revolta.

A obra está dividida em 8 capítulos, a primeira função é estabelecer as tradições da vida escolar ("Return", "Term Time") e depois como o sistema molda as principais personagens ("Discipline"), e radicaliza-as ("Resistance", "Forth to War"). Esta estrutura atinge o seu apogeu no quarto capítulo ("Ritual and Romance"), um interlúdio poético que se torna o maior suco visual da obra, fase do filme onde as personagens aproveitam livremente a sua juventude antes de serem punidas pelo chicote do poder.

If.... ganha ainda um maior "corpanzil" ao chocar o público com uma cena final guerrilha, que vai ao encontro da dureza da convenção: a mentalidade não muda de um dia para o outro, um país não se reergue em minutos; daí a beleza ingénua da revolução se definir como uma elipse ao não se conseguir completar ciclicamente nem respeitando a sua sobriedade, a fragilidade da mudança é o que resta num mar de sangue de desespero. 

 


 

"There's no such thing as a wrong war. Violence and revolution are the only pure acts." 

publicado por Diogo às 15:32
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