Domingo, 3 de Outubro de 2010

Un Prophète (2009) Jacques Audiard

Condenado a seis anos de prisão, Malik El Djebena (Tahar Rahim) não sabe ler nem escrever. Chegando à prisão completamente só, tem um aspecto mais jovem e frágil que os outros reclusos (tinha 19 anos quando se deu a sua entrada). O protagonista cai nas mãos do líder de um gang corso, que domina toda a cadeia, e que lhe dá uma série de "missões" para levar a cabo, o que o transforma numa pessoa mais dura que, com o tempo se vai impondo na cadeia alimentar.

Antes de começar a minha crítica queria antes de mais nada avisar que não entrarei em comparações como "némesis" desta obra (O Laço Branco).

O último filme de Audiard Jr. define-se como uma espécie de Scarface dos tempos modernos, todo o thriller empolgante cresce à medida que a letárgica resistência existencial de Malik (semelhante a uma barata em sobrevivência) se vai transformando numa voraz fome por poder, o que permite que o filme se desdobre em duas distintas caras: o que parecia ser uma quase documental observação da vida prisional assume-se  como uma saga de gansters arrebatadora.

A revolução interior de um lacaio vai progredindo à medida que Malik se vê obrigado não só a lidar com corsos mas também com árabes (como ele), pretos e egípcios. A prisão é um mundo balcanizado dividido em grupos e ambientes hostis. A entrada abrupta do protagonista neste mundo deve se a uma grande explosão, à sua perda de virgindade assassina ainda por cima com o sangue de um árabe como ele, este seu primeiro "trabalho" permite que ele entre nesta dura cadeia "sobrevivêncial" e permite que duas grandes metáforas (que vão acompanhar todo o filme) surjam paralelamente: as aparições esquizofrénicas de Reyeb (assassinado por Malik) dão a cara da luta interior do protagonista e o verdadeiro cheiro dos seus ideais que poucas oportunidades têm de se manifestar; a formação académica que tem como impulso uma conversa orientadora por parte de Reyeb antes de este ver a sua garganta cortada, sempre que Malik vai subindo na pirâmide de poder na prisão é demonstrado consecutivamente o seu empenho árduo no "ensino" e as suas vitórias no "estudo". Ele ouve, aprende e tira proveito de todas as oportunidades. Ele evolui de um Árabe lamacento para um verdadeiro engenhoso líder (ele aprende a falar italiano devido à "convivência" com César é mais uma metáfora) a verdadeira análise deste filme é até onde a capacidade d adaptação de um homem pode chegar.

Audiard é bem servido tecnicamente, já que com o auxilio do director artístico Etienne Rohde (e o resto da equipa) consegue criar um claustrofóbico e labiríntico  ambiente de cela mas também uma "viagem" rica em exuberantes sensações naturais de quando Malik periodicamente tem liberdade.

Tahar Rahim é um dos grandes atributos deste filme, já que consegue capturar toda a ingenuidade transformada rapidamente num ímpeto visceral, a expressão cansada mas sem limites ambiciosos de Malik embrutecem o filme.

Fazendo uso da violência crua como a tentativa de esconder uma lâmina na boca (uma das minhas cenas predilectas) Jacques Audiard consegue criar um sólido filme de "entretenimento" (talvez não seja a palavra mais correcta) conseguindo reviver um género. A sua criação grita honestidade.


 


 

publicado por Diogo às 00:10
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2 comentários:
De João a 4 de Outubro de 2010 às 12:01
Gostei muito de ler a crítica. Também a mim me surpreendeu bastante
De Diogo a 4 de Outubro de 2010 às 12:51
Surpreendeu-me ainda mais por eu não ser um grande fã do trabalho previo deste autor. Denota-se nas suas outras obras a mesma crueza de acção mas no "Um Profeta" Audiard encontra o habitat natural para a sua execução o que me faz crer que a partir de agora para dar seguimento a esta bela peça o realizador terá de entrar numa nova fase, num novo ciclo de criação. Mas se ignorar esta mais que necessária evolução e continuar a surpreender no mesmo terreno, levanto-lhe o chapéu.

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