Sábado, 3 de Julho de 2010

Citizen Kane (1941) Orson Welles

Nos seus últimos instantes de vida Charles Foster Kane sussurra a enigmática palavra "Rosebud" deixando-se cair num sono eterno. Um grupo de jornalistas pesquisa a origem desta última palavra recorrendo sobretudo à ajuda das pessoas mais próximas destes infeliz magnata, recolhendo memórias e recordações que parecem mesmo assim não conseguir resolver o puzzle por de trás da palavra.

"I don't think any word can explain a man's life" sugeriu um dos jornalistas na mansão repleta de tesouros do magnata Charles Foster Kane. De seguida, são nos expostos os planos que findam com o épico close up à palavra "Rosebud" e à morte de um corpo que chora a infância perdida. 

Rosebud é a cara da esperança e da inocência da infância, na qual um homem batalha toda a sua vida para a recuperar. "Maybe Rosebud was something he couldn't get, or something he lost", exclama Thompson, outro jornalista encarregue de decifrar o enigma da ultima palavra dita por Kane, as hipóteses eram todas; a verdade é que Rosebud não consegue explicar nada concretamente, daí a estranha satisfação desta demonstração em que nada consegue ser inteiramente explicado. Citizen Kane, brinca com estes paradoxos de uma forma engraçada, desfrutável e única como nenhuma obra alguma vez ousara fazer.

Citizen Kane é mais que uma grande obra, é o conjunto de todas as lições de uma era emergente do som, o pico de uma arte e de uma geração.

Foi dada a Orson Welles, o rapaz maravilha da rádio, toda a liberdade pela RKO Radio Pictures de fazer um filme ao seu gosto. Ao chegar a Hollywood, nos seus 25 anos, Welles traz consigo um novo conhecimento do som e do diálogo. Na sua estação de rádio ele experimenta diferentes e sugestivos estilos de "narrar", diferente dos usuais do cinema da época (exemplo da leitura da Guerra dos Mundos via rádio e das suas consequências). 

Mas não é só a nível sonoro que há inovação, com a ajuda do director de fotografia - Gregg Toland, é usado o diferente tipo de foco e profundidade de campo, cenas em que tudo está focado de planos principais a secundários, de forma a que a composição e o movimento determinem para onde o interprete se dirige primeiramente.

Welles desempenha com tenacidade o papel de Charles Kane, dando corpo a também uma personagem/interpretação emblemática.  

A narrativa é outra forma de inovação, já que Citizen Kane é o primeiro filme a brincar com os "flashbacks", ao passear pelo tempo pelos olhos de diferentes testemunhas , Welles consegue criar uma cronologia emocional liberta do tempo.

O filme está repleto de movimentos visuais de bravura, podendo dar o exemplo de inúmeras cenas apontando claro como primeira a voracidade com que Kane elabora o seu diálogo na concorrência a chanceler do estado, ou a crescente tensão demonstrada entre Charles Kane e a sua primeira mulher nos breves momentos em que permaneciam juntos (ao pequeno-almoço).

Citizen Kane sabe que o trenó não é a resposta, é explicado o que é Rosebud mas não o que significa. A construção do filme mostra-nos que as nossas vidas, após nós partirmos, sobrevivem na memória dos outros, memórias essas revelam os papeis que nós desempenhamos. Há o Kane que fazia figuras de animais com os seus dedos na sombra, o Kane que manipulava e espezinhava todos os que se atravessavam no seu caminho, o magnata impetuoso e caprichoso, o Kane que morreu só.  

Apesar de ter o carimbo de melhor filme do mundo, Citizen Kane consegue inexplicavelmente ultrapassar todas as expectativas.

Um dos milagres do cinema nasce em 1941. 


Rosebud

publicado por Diogo às 13:04
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